Máscara cirúrgica: de bico de pássaro à China, a história de um acessório essencial

De repente, uma pandemia. A expansão da Covid-19 no Brasil e em todo o mundo fez com que mudássemos nossos hábitos – aliás, espero que você que está lendo esse post esteja seguro e, na medida do possível, em casa. Uma dessas mudanças foi o uso de máscaras, caseiras ou não; no começo, recomendada às pessoas infectadas ou com sintomas e agora à toda a população. Mas desde quando usamos máscaras para nos proteger de doenças?

Um dos primeiros registros do uso desse tipo de proteção por parte dos profissionais da saúde foi na época da peste bubônica, ou peste negra, que acometeu o mundo durante o século XIV. A pandemia se espalhou por Ásia, África e especialmente a Europa, matando aproximadamente 50 milhões de pessoas, um terço da população europeia na época. No século XVII, um novo surto da doença fez com que os médicos usassem um traje curioso para se protegerem: uma máscara que cobria o rosto e lembrava um grande bico de pássaro. Além dela, o traje dos médicos era composto por um longo casaco, calças presas às botas e luvas de couro. Acredita-se que a combinação assustadora foi usada pela primeira vez por Charles de Lorme, médico que cuidou de membros da casa dos Médici e da realeza francesa, incluindo o próprio rei Luís XIII.

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Imagem: Reprodução

Naquele momento, a principal teoria sobre a disseminação de doenças como a peste negra era a chamada miasmática: de acordo com ela, a origem dos males vinha dos odores de matéria orgânica em decomposição e de água contaminada. Por isso, quanto mais tempo o ar demorasse para chegar aos narizes dos médicos, melhor – o bico de pássaro começa a fazer sentido, não? Mas ia além: os “bicos” eram preenchidos com uma mistura chamada teriaga, uma combinação de mais de 55 ervas e especiarias conhecida como um antídoto para envenenamentos. Entre os ingredientes, pó de carne de víbora, mirra, mel e canela. Dessa forma, a máscara de bico proporcionaria tempo suficiente para o ar ser absorvido pelo composto protetor antes de atingir as narinas e, posteriormente, os pulmões dos médicos.

Corta para o século XIX, especificamente em 1987, quando surgiram as primeiras máscaras cirúrgicas. Naquela época, elas consistiam basicamente em um lenço amarrado ao redor do rosto, para impedir que os médicos espalhassem gotículas durante um procedimento.

Em 1910, quando um novo surto de peste bubônica aconteceu na China, o médico Lien-teh Wu foi chamado pela Corte Imperial Chinesa para ajudar no combate à doença. Inspirado nas máscaras cirúrgicas criadas no Ocidente, Wu elaborou uma máscara mais resistente, feita de gaze e algodão, enrolada ao redor do rosto, com várias camadas de pano. Sua invenção fez sucesso e, no ano seguinte, as máscaras criadas por ele passaram a ser usadas por médicos, militares e pessoas comuns sintomáticas, ajudando a desacelerar a propagação da doença. Na década de 1970, foram criadas as máscaras com filtro, as N95.

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Foto: Kay Lau/Unsplash

Assim como nós, meros mortais, tivemos que nos reinventar para encarar o novo coronavírus, a indústria têxtil também se transformou. De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), mais de 140 empresas passaram a fabricar máscaras descartáveis e aventais hospitalares, entre outros itens de proteção pessoal e para especialistas na linha de frente do combate à doença. “Saímos de uma produção de seis milhões, que já era realizada por cerca de uma dezena de empresas, para 75 milhões de máscaras tipo cirúrgicas e 10 milhões de equipamentos de proteção individual, como aventais”, afirmou Fernando Valente Pimentel, presidente da Abit, em comunicação oficial. O volume deverá crescer ainda, pois diariamente mais fábricas estão convertendo seu processo produtivo.

Por isso, seja descartável, seja N95, seja caseira (eu coloquei uns lenços belíssimos para jogo e ganhei uma opção fofa de crochê feita pela senhora minha mãe), proteja-se com sua máscara e saia apenas se for necessário. Enquanto isso, eu fico em casa com minhas gotículas guardadas e muitas histórias para contar – espero vocês na próxima!

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