Dia das Mães: roupas e memórias de dona Sandra

Neste Dia das Mães tão diferente, tão distante, fiquei pensando justamente no quanto a moda nos aproxima. E, claro, pensando na dona Sandra – por amor e por segurança, não a verei no dia de hoje, pelo menos não pessoalmente.Só que basta abrir o guarda-roupa para que eu pense na minha mãe.

Além das peças que ela me deu de presente, dona Sandra me ensinou uma coisa ou outra sobre moda. A primeira delas foi o valor dos acessórios para transformar um look – em especial, os lenços e echarpes. Se hoje tenho uma coleção deles, é porque ela me ensinou a usá-los em diferentes situações. E, olha só que sorte, alguns deles hoje ainda conseguem virar máscaras caseiras.

Só que nesses tempos de isolamento social, em que estou confinada em casa (ela não, guerreira de um serviço essencial), lembro de dona Sandra em outro momento: ao cuidar das minhas roupas. Quando lavo minhas peças, tenho na memória meus seis ou sete anos de idade, quando, sentada no degrau da escada, ficava batendo papo com ela enquanto ela lavava as roupas de três pessoas e um bebê no tanque e na máquina. Quando recolho minhas roupas no varal, lembro dos fins de tarde com ela; os bracinhos estendidos para receber as peças que ela ia soltando dos pregadores. Cada roupa era cuidada com o amor que só as mães têm, mas que eu tento reproduzir aqui em casa.

Só que minha mãe tem um talento que vai além, que eu ainda não consegui aprender: seu dom para o artesanato. Ela tricota, crocheta, borda, costura. Ela fez máscaras de crochê lindas que eu ostento ao ir ao mercado ou à feira. Ela está fazendo um quadro bordado para colocar na minha cozinha. Ela capricha e diz que não é nada, é sua terapia.

Tenho muitas outras memórias que unem a moda e dona Sandra: seu gosto por vestir eu e minha irmã mais nova com roupas parecidas, apesar da diferença de idade entre nós; seu riso nervoso ao ver que eu havia dormido de uniforme, para não precisar acordar mais cedo para me trocar para a escola; nossas corridas por vestidos de formatura ou o meu vestido de debutante.

Foi ela quem me deu de presente meu vestido de noiva, mas não pode ir ao meu casamento no cartório. Ela me ajudou a arrumar minha casa, e, mesmo à distância, segue cuidando de mim. Só um amor tão grande desses supera a quarentena. Só ele nos dá a certeza de que dias melhores virão. Feliz Dia das Mães, dona Sandra.
P.S.: se você está precisando de um entretenimento para esse domingo de quarentena, minha sugestão é o livro O fio da trama, de Alessandra Blocker e Consuelo Blocker, sobre a trajetória das mulheres da família Pascolato, uma das maiores referências na moda brasileira. Um verdadeiro livro de família, feito a partir do resgate dos diários de Gabrielle Pascolato, mãe de Constanza, avó das autoras. Estou lendo e amando; quando terminar, venho contar para vocês!

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