“O fio da trama”: as mulheres da família Pascolato

Quando O fio da trama foi lançado, fiquei curiosa, primeiro por meu interesse em história da moda e segundo por minha admiração pelo trabalho de Constanza Pascolato. O que eu não esperava era que esse “fio” fosse me envolver tanto, e me fazer refletir muito além da história da família e da tecelagem Santaconstancia, mas sobre a situação que vivemos na atualidade, com um mal que nos mantém dentro de nossas casas e que ainda não sabemos quanto tempo mais irá durar.

Explico: a primeira parte do livro nos apresenta a história da avó das autoras, Gabriella Pascolato, reconstruída a partir do resgate e da leitura de seus antigos diários por Alessandra e Consuelo Blocker. Acompanhamos a saga de Gabriella durante a Segunda Guerra Mundial, um período ainda mais intenso para ela, já que seu marido, Michelle (ou Miki, afinal estamos íntimos após a leitura) fazia parte do partido fascista. Apesar de discordar das decisões extremas de Mussolini, Miki acreditava que era possível ter uma Itália unida, por isso se filiou ao partido e atuou como piloto militar durante a guerra. Enquanto isso, Gabriella estava em casa, aprendendo a ser mãe da pequena Constanza e a lidar com o fato de ter uma guerra que a impedia de sair com liberdade ou passar mais tempo com seu marido ou sua família – soa familiar?

“Era fácil se deixar envolver pelas angústias da guerra. Tratava-se de um fenômeno estranho: se por um lado fazia parte de nossa natureza seguir vivendo na medida do possível um cotidiano normal, por outro, estava sempre presente uma tristeza crônica, um sentimento quase imperceptível, desgastante, provocado pelas mortes, pela destruição e pela distância.” (pg. 204)

Ler esse livro durante a quarentena – em que ao mesmo tempo eu tinha todo o tempo e interesse do mundo, mas era constantemente interrompida pelas notícias do avanço da pandemia de covid-19 no país – foi desafiador, mas ao mesmo tempo uma excelente companhia. A história das mulheres Pascolato/Blocker faz com que a gente se lembre da força que temos para nos reerguer e criar oportunidades onde tudo pode parecer perdido.

Mas vamos à história para os amantes de moda! Após acompanharmos a saga da família Pascolato para deixar a Europa no final da Segunda Guerra Mundial e a chegada de Gabriella, Miki, Constanza e o pequeno Alessandro, vemos o começo da carreira de Gabriella no universo da moda, primeiro como revendedora de sapatos de Salvatore Ferragamo (eles eram grandes amigos, sendo que ele desenhou para ela diversos pares de calçados exclusivos, incluindo os que ela usou em seu casamento), a abertura de uma pequena loja no centro de São Paulo com o marido para a venda de seda e enfim, em 1948, a abertura da Tecelagem Santaconstancia. Uma das histórias curiosas do livro diz respeito à escolha do nome da empresa: além de uma homenagem clara à filha, Constanza, foi também uma ironia com as outras empresas da indústria têxtil da época.

“A escolha do nome foi fruto do senso de humor apurado do casal. No final de 1947, todas as fábricas de tecidos de São Paulo tinham nomes de santo: Santa Terezinha, Santa Isabel…

– Põe santa-qualquer-coisa – disse Miki

– Santa Constância, pensou Gabriella. Santa Constância é como vai se chamar a fábrica. Além de ser um jeito de usar o nome da filha, já passava da hora de terem alguma constância na vida. Ficou assim.” (pg. 236)

A partir de então, as vozes do livro começam a se dividir e o resultado é tão delicioso quanto seria sentar-se para um café com Constanza, Consuelo e Alessandra. Cada uma com suas memórias, elas constroem um mosaico da história dessas mulheres, com suas conquistas e dificuldades, alegrias e tristezas.

Foi interessante ver como Constanza não simplesmente “nasceu” a Papisa da Moda. Rebelde, não gostava de estudar, mas sempre teve bom gosto. Após se envolver no departamento comercial da Santaconstancia, quase conseguir um estágio com Emilio Pucci na Itália, ela parou de trabalhar para se dedicar à casa, apesar de continuar estudando Artes Plásticas. Anos mais tarde, essa bagagem faria com que ela se tornasse produtora de moda da revista Claudia, onde atuou por mais de 15 anos e se consagrou.

“De repente, descobriu um universo muito mais interessante e profundo do que poderia imaginar. O mundo se abriu e ela conseguiu colocar em palavras o que sempre soube intuitivamente: que a moda era muito mais do que uma sucessão de tendências, era um reflexo da cultura, dos costumes e dos anseios de uma sociedade e de seus integrantes em diferentes momentos da história.” (pg. 383)

Além de viajar pela história das mulheres Pascolato e da moda, ler O fio da trama me permitiu também… viajar sem sair do sofá! A história começa na Europa, em diversos lugares da Itália onde a família viveu, veio para São Paulo, seguiu para o Rio de Janeiro (repleto das lembranças de infância de Consuelo e Alessandra), ganhou Nova York quando as autoras foram para a universidade e voltou para a Itália na mala de Consuelo, quando ela decide viver sua história de amor em Florença. Quando a pandemia passar, gostaria de tê-las como guias de viagem e ouvir novamente suas histórias, in loco. Por enquanto, suas linhas me fizeram ótima companhia.

*Texto publicado originalmente no blog da editora Tordesilhas.

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